Sociedade científica defende que discussões sobre ILPIs priorizem a dignidade, a segurança e a continuidade do cuidado às pessoas idosas
A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo (SBGG-SP) manifestou preocupação diante dos argumentos apresentados por moradores em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, em 25 de maio, sobre a retirada de casas de repouso para idosos na região da Lapa, na capital paulista.
Sem entrar no mérito técnico da legislação urbanística ou da legalidade dos processos administrativos, a entidade chama atenção para um ponto central do debate: a forma como pessoas idosas, especialmente aquelas que vivem em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), ainda são tratadas com invisibilidade, preconceito e desumanização.
Para a SBGG-SP, manifestações que associam a presença de pessoas idosas em situação de cuidado à desvalorização imobiliária, ao incômodo causado por ambulâncias ou à circulação de carros funerários revelam uma face preocupante do idadismo estrutural. O termo se refere ao preconceito, à discriminação e aos estereótipos direcionados às pessoas com base na idade.
“Quando a presença de uma instituição que cuida de pessoas idosas passa a ser tratada como um problema para a vizinhança, precisamos refletir sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. A velhice não pode ser vista como incômodo urbano ou fator de desvalorização. Estamos falando de vidas, histórias, vínculos e direitos. É legítimo discutir normas e processos administrativos, mas qualquer decisão que envolva ILPIs precisa considerar, antes de tudo, a proteção dos residentes, a continuidade do cuidado e uma eventual transição segura”, afirma Diego Félix Miguel, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP.
A SBGG-SP destaca que pessoas idosas residentes em ILPIs historicamente enfrentam maior invisibilidade nas políticas públicas e, muitas vezes, têm suas necessidades, trajetórias e desejos silenciados. Por isso, qualquer medida que afete essas instituições exige avaliação técnica, planejamento intersetorial e gestão humanizada, com participação de profissionais especializados em envelhecimento.
A entidade também ressalta que o cuidado à pessoa idosa não pode ser tratado como uma questão periférica. Com o avanço do envelhecimento populacional, a demanda por serviços de longa permanência tende a se tornar cada vez mais presente nas cidades, o que exige planejamento urbano, políticas públicas adequadas e maior conscientização social.
Neste contexto, a SBGG-SP manifesta solidariedade às instituições e aos profissionais que atuam na assistência às pessoas idosas, mas, sobretudo, aos residentes diretamente impactados por esse tipo de debate. Para a entidade, viver com dignidade, ter acesso a cuidados adequados e permanecer protegido em situações de vulnerabilidade não são privilégios, mas direitos fundamentais.
“Precisamos superar a ideia de que a pessoa idosa deve permanecer escondida ou afastada da vida comunitária. ILPIs não são espaços de exclusão. Quando bem estruturadas, fazem parte da rede de cuidado e devem estar integradas à sociedade. Se tivermos sorte, todos nós envelheceremos. Defender a dignidade das pessoas idosas hoje é também defender o nosso próprio futuro”, conclui Diego Félix Miguel.