Casos de Parkinson podem dobrar até 2050 no mundo: além dos avanços medicamentosos, estudos clínicos com recrutamento ativo, ultrassom e marca-passos cerebrais ampliam o controle dos sintomas
A Doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa em crescimento no mundo. Estudo publicado na revista científica britânica British Medical Journal (BMJ), em 2025, liderado pelo neurologista Tao Feng, da Peking University Third Hospital, e baseado em dados do Global Burden of Disease, projeta que o número de pessoas vivendo com a doença pode chegar a 25,2 milhões até 2050 — um aumento de 112% em relação a 2021. O envelhecimento da população é apontado como o principal fator para esse avanço, seguido pelo crescimento populacional e por mudanças na prevalência da doença.
Uma nova frente de pesquisa amplia o entendimento sobre a doença. Estudo da Yale School of Medicine, publicado recentemente na revista Nature Microbiology, indica que o microbioma intestinal pode interferir diretamente na eficácia da levodopa, principal tratamento do Parkinson². Ao mesmo tempo, avanços internacionais, como a aprovação pelo Ministério da Saúde do Japão de uma terapia baseada em células-tronco pluripotentes induzidas, apontam para uma nova etapa no tratamento, com foco na reposição de neurônios produtores de dopamina³.
“O Parkinson deixou de ser analisado apenas como uma doença neurológica isolada. Hoje, falamos de um processo que envolve também fatores sistêmicos, como o intestino e a resposta inflamatória do organismo”, afirma o neurologista da Dasa e coordenador do Núcleo da Memória do Alta Diagnósticos, dr. Diogo Haddad. A doença é marcada pela degeneração progressiva de neurônios produtores de dopamina, comprometendo o controle dos movimentos e outras funções do sistema nervoso central.
“O grande desafio é que ela começa antes dos sintomas clássicos. Quando o tremor aparece, muitas vezes o processo já está em curso há anos. Por isso, reconhecer sinais precoces e ampliar a investigação é fundamental”, diz Haddad.
Além dos sintomas motores — como tremores, rigidez e lentidão —, o especialista chama atenção para manifestações menos conhecidas. “Alterações no olfato, distúrbios do sono e constipação intestinal podem surgir antes e impactam diretamente a qualidade de vida. Esses sinais ainda são subvalorizados.”
O diagnóstico pelo DNA
Na prática clínica, o diagnóstico continua sendo predominantemente clínico, apoiado pela resposta à levodopa e por exames complementares para excluir outras condições. Em casos selecionados, a investigação genética pode ser incorporada, especialmente quando há suspeita de início precoce ou histórico familiar.
Entre os exames disponíveis, destacam-se o Painel NGS para Doença de Parkinson de Início Precoce, que avalia múltiplos genes associados à condição, e o Sequenciamento Completo do Gene PARK2 – NGS, mais direcionado a casos de Parkinson juvenil.
“Esses testes ajudam a identificar casos nos quais a carga genética é predominante para a ocorrência da doença, que provocam um início mais precoce, e uma evolução e resposta medicamentosa diferente da habitual.”, explica Gustavo Guida, médico geneticista na Dasa Genômica. “Eles ampliam a capacidade de entender o paciente e orientar a família”, completa.
Terapias por estímulos cerebrais
Se o diagnóstico evolui, o tratamento também passa por transformação. A base ainda é medicamentosa, com reposição de dopamina, mas novas abordagens vêm ganhando espaço, especialmente em pacientes que não respondem mais adequadamente às terapias tradicionais.
“A estimulação cerebral profunda, conhecida como marca-passo cerebral, já é uma realidade consolidada. O ultrassom focado surge como alternativa não invasiva, com resposta rápida para controle de tremores”, afirma o neurologista.
Pesquisas clínicas avançam nas descobertas sobre a doença
Esse cenário também impulsiona a pesquisa clínica no Brasil. Instituições e empresas como a Dasa mantêm estudos em andamento voltados ao Parkinson, com recrutamento ativo de voluntários. As iniciativas são conduzidas por centros como o CPClin, responsáveis por estruturar protocolos e ampliar o acesso a novas abordagens terapêuticas.
Atualmente, um dos estudos em curso seleciona homens e mulheres entre 50 e 85 anos, diagnosticados nos últimos três anos, em tratamento exclusivamente com levodopa ou Prolopa, sem histórico de quedas frequentes ou diagnóstico de demência. O cadastro para participação está disponível em: https://lps.cpclin.com.br/pesquisa-2026
“A pesquisa clínica conecta o que está sendo desenvolvido no laboratório com a prática. É onde conseguimos validar novas abordagens e oferecer alternativas para pacientes que muitas vezes já esgotaram as opções disponíveis”, completa dr. Haddad.
Para o especialista, o avanço da ciência aponta para uma mudança estrutural no cuidado. “O futuro do Parkinson passa por diagnóstico mais precoce, medicina personalizada e maior acesso à pesquisa. A doença continua desafiadora, mas hoje existem mais caminhos do que havia há poucos anos.”
Referências
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