Com mais de 17 mil mortes registradas em um ano, campanha reforça a importância da atenção à saúde masculina; urologista Rodolfo Favaretto Filho explica os riscos, os sinais de alerta e os cuidados que podem fazer a diferença
O câncer de próstata continua sendo um dos maiores desafios da saúde masculina no Brasil. Segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgadas em 2026, o país deverá registrar aproximadamente 77.920 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Isso representa uma média estimada de 213 novos diagnósticos por dia, ou quase nove por hora.
Os números de mortalidade também chamam a atenção. Em 2024, o Brasil registrou 17.826 mortes por câncer de próstata, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, divulgados pelo INCA. São, em média, quase 49 vidas perdidas diariamente.
Com a chegada do Novembro Azul, campanha mundial dedicada à conscientização sobre a saúde masculina, especialistas reforçam a importância de combater a desinformação, reconhecer fatores de risco e incentivar os homens a procurar acompanhamento médico.
Para o médico urologista Dr. Rodolfo Favaretto Filho, a campanha precisa ir além da discussão sobre exames e estimular uma mudança de comportamento. “O Novembro Azul é uma oportunidade de lembrar que o homem precisa olhar para a própria saúde durante o ano inteiro. Muitos ainda procuram atendimento apenas quando apresentam algum sintoma ou quando a situação já está comprometendo sua qualidade de vida. Precisamos mudar essa cultura e mostrar que cuidar da saúde é uma atitude de responsabilidade”, explica o especialista.
Um câncer que pode evoluir silenciosamente
O câncer de próstata é o tipo de tumor maligno mais frequente entre os homens brasileiros quando desconsiderados os cânceres de pele não melanoma. De acordo com o INCA, representa aproximadamente 30,5% dos novos casos de câncer estimados na população masculina.
Um dos principais desafios é que a doença pode não apresentar sintomas nas fases iniciais. Quando surgem, manifestações como dificuldade para urinar, diminuição da força do jato urinário, aumento da frequência urinária e presença de sangue na urina merecem investigação, embora também possam estar relacionadas a outras condições benignas. “Um dos maiores equívocos é acreditar que a ausência de sintomas significa que está tudo bem. O câncer de próstata pode evoluir de maneira silenciosa. Por isso, conhecer os fatores de risco, conversar com o urologista e avaliar individualmente a necessidade de investigação são atitudes importantes”, destaca Rodolfo.
A idade é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento da doença, especialmente após os 60 anos. O histórico familiar também merece atenção, sobretudo quando pai ou irmão receberam diagnóstico de câncer de próstata em idade mais jovem.
Afinal, quando o homem deve procurar o urologista?
Apesar de o Novembro Azul ser tradicionalmente associado ao exame de próstata, a avaliação da saúde masculina é mais ampla e deve considerar idade, histórico familiar, sintomas e condições individuais. O exame de PSA, realizado por meio de coleta de sangue, e o toque retal podem fazer parte da avaliação clínica, conforme indicação médica. Entretanto, o Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o rastreamento populacional indiscriminado de homens sem sintomas, considerando os possíveis riscos de resultados falso-positivos, sobre diagnóstico e tratamentos desnecessários.
A orientação é que a decisão sobre a realização dos exames seja individualizada e compartilhada entre médico e paciente, após discussão dos possíveis benefícios e riscos. “Não existe uma única conduta que sirva para todos os homens. O mais importante é avaliar cada paciente, conhecer seu histórico e explicar quando determinado exame pode trazer benefícios. A informação de qualidade permite decisões mais seguras e evita tanto a negligência quanto procedimentos desnecessários”, afirma o urologista.
Saúde masculina vai muito além da próstata
O especialista também chama a atenção para outro aspecto importante: o Novembro Azul deve ser uma oportunidade para discutir a saúde do homem de maneira integral. Doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, alterações hormonais, disfunção erétil e problemas relacionados à fertilidade também precisam fazer parte dessa conversa.
Hábitos como alimentação equilibrada, prática regular de atividades físicas, controle do peso, abandono do tabagismo e redução do consumo de álcool contribuem para a saúde geral e podem reduzir o risco de diferentes doenças. “Precisamos aproveitar o Novembro Azul para ampliar essa conversa. Não basta falar apenas da próstata. O homem precisa entender que a saúde sexual, hormonal, metabólica e cardiovascular está interligada. Cuidar de si mesmo deve fazer parte da rotina, e não ser uma preocupação apenas quando aparece algum problema”, ressalta Rodolfo.
Informação e acompanhamento podem fazer a diferença
Para o urologista, o principal legado do Novembro Azul deve ser a conscientização permanente. O avanço dos métodos diagnósticos e das opções terapêuticas permite abordagens cada vez mais individualizadas. Quando o câncer de próstata é identificado em estágio localizado, muitos pacientes apresentam perspectivas favoráveis de tratamento, dependendo das características do tumor e das condições clínicas.
“O maior recado é que o homem não deve ter vergonha de procurar ajuda. A consulta médica é um espaço para esclarecer dúvidas, avaliar riscos e tomar decisões. Quanto mais natural for falar sobre saúde masculina, maiores serão as oportunidades de identificar problemas e cuidar deles no momento adequado”, conclui Dr. Rodolfo Favaretto Filho.