Mudanças sustentáveis de saúde exigem continuidade, acompanhamento e uma relação menos imediatista com o corpo, afirma especialista
Existe uma expectativa crescente de que saúde possa ser resolvida rapidamente. Um exame alterado, alguns quilos a mais, cansaço, baixa disposição. Para cada problema, espera-se uma intervenção quase imediata: uma dieta, uma medicação, um protocolo ou um “reset”.
Nos últimos anos, as canetas emagrecedoras passaram a representar talvez o exemplo mais visível dessa lógica. E não há como negar que elas trouxeram avanços importantes. Pela primeira vez, muita gente conseguiu experimentar uma perda de peso significativa sem recorrer a soluções extremas ou a um sofrimento constante em torno da alimentação.
Mas existe um ponto que começa a aparecer com mais força na prática clínica: emagrecer rápido não significa necessariamente construir saúde de forma sustentável.
“O corpo humano não funciona no ritmo da ansiedade contemporânea. Especialmente depois dos 40 ou 50 anos, metabolismo, composição corporal, recuperação física, sono e níveis de energia passam a responder de maneira mais complexa ao estilo de vida”, afirma o médico Leonardo Fiuza, especialista em cirurgia geral, cirurgia bariátrica e medicina esportiva, com atuação focada em saúde metabólica, emagrecimento e performance.
Segundo o especialista, um dos maiores erros da relação moderna com saúde está justamente em tratá-la como um projeto temporário.
“Ainda existe a ideia de que saúde é algo que pode ser resolvido por ciclos. Um esforço intenso antes do verão, uma intervenção rápida depois de um ganho de peso, uma tentativa de corrigir em poucas semanas hábitos construídos ao longo de anos. Na prática, o corpo raramente acompanha essa lógica”, diz.
Na clínica, o médico afirma observar um número crescente de pacientes que conseguem emagrecer, mas encontram enorme dificuldade para sustentar o resultado quando abandonam completamente o acompanhamento, a reorganização da rotina e o cuidado contínuo.
E, segundo ele, isso não acontece apenas por falta de disciplina.“Existe uma adaptação biológica importante nesse processo. O organismo tende a defender padrões anteriores de peso, energia e funcionamento metabólico. Por isso, reduzir a discussão sobre obesidade apenas ao número da balança talvez seja simplificar demais um problema muito mais amplo”, explica Leonardo.
Para o médico, metabolismo não deve ser entendido apenas como emagrecimento. A discussão envolve também disposição, recuperação, qualidade do sono, energia, capacidade de manter massa muscular, estabilidade hormonal e longevidade.
As próprias medicações mais modernas, segundo ele, fazem mais sentido quando inseridas dentro de uma lógica de continuidade.
“As canetas podem ser ferramentas extremamente úteis, mas dificilmente funcionam como solução isolada para problemas que foram construídos ao longo de anos. A medicina avançou muito rápido. O comportamento das pessoas nem sempre acompanhou esse avanço”, conclui.