Evento promovido pelo Supera e Associação Brasileira de Gerontologia reuniu em São Paulo capital geriatras, neurologistas, psicólogos e outras especialistas para debater o diagnóstico, epidemiologia, prevenção e hábitos saudáveis para preservar e desenvolver a saúde do cérebro
O declínio cognitivo está associado a longevidade e outros fatores, mas há ações de prevenção e desenvolvimento que podem retardar reflexos e preservar a saúde do cérebro em todas as idades. Essa foi a principal conclusão do 8º Despertando a Sociedade para a Saúde do Cérebro 2026, evento gratuito promovido pelo Supera, rede de estimulação cognitiva e pela ABG (Associação Brasileira de Gerontologia) que reuniu, em São Paulo capital, geriatras, neurologistas, psicólogos e outras especialistas para debater o que há de mais atual na prevenção, tratamento e cuidados na área de declínio cognitivo.
Estimativas apontam que há no mundo mais de 57 milhões de pessoas com demência (um dos tipos de declínio cognitivo), sendo cerca de 2,5 milhões apenas no Brasil – números que tendem a crescer com o envelhecimento médio da população globalmente (estima-se que em 2050 mais de 150 milhões de pessoas possam ter algum tipo de demência, sendo 60% em países em desenvolvimento). Mas outro dado chama ainda mais a atenção: 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados, segundo estudo do Comissão Lancet de 2024.
Com uma abordagem prática, os especialistas apontaram durante o evento vários caminhos – muitos deles simples – para prevenção e tratamento do declínio cognitivo. Confira os 7 principais insights.
1 – Níveis de impacto – O evento trouxe uma diferenciação importante entre Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) e Demência. No primeiro, existe uma queda cognitiva além do esperado (esquecimentos recorrentes), mas as pessoas conseguem manter suas atividades do dia a dia. No segundo, o declínio passa a interferir na independência e ações cotidianas (como organizar os próprios remédios e dirigir), conforme explica o Dr. Marcelo Houat, Neurologista especializado em Neurologia Cognitiva e do Comportamento; médico do GNCC e do CEREDIC do HCFMUSP. O médico ressaltou ainda que o Alzheimer é a principal causa de demência, mas não a única.
2 – Diagnóstico – Apesar do declínio cognitivo e o Alzheimer serem mais comuns com o avanço da idade, a realização de um diagnóstico é fundamental para um melhor tratamento. Segundo o Dr. Hoaut, esse diagnóstico é multifatorial e abrange quatro aspectos principais: entender a história do paciente (com o apoio da família e cuidador), avaliação cognitiva e de funcionalidades (testes e impactos no dia a dia), procura de causas tratáveis e agravantes (com exames de sangue e análise clínica) e investigar a estrutura do cérebro (com ressonância ou tomografia). O médico aponta ainda marcadores específicos para Alzheimer, mas com análise sempre em conjunto com outros indicadores.
3 – Cuidados e Fases da vida – Um cérebro se protege (ou se desgasta) a vida inteira, conforme ressaltou a Dra. Sumika Mori Lin, Médica geriatra; coordenadora do Ambulatório de Fragilidade do HCFMUSP e da equipe de Geriatria do Hospital Santa Cruz. Na Infância/juventude, o fundamental é uma educação para a construção de reserva cognitiva (recursos neurais acumulados pelo cérebro). Já a meia-idade é a fase mais decisiva que demanda atenção a aspectos como audição, colesterol, pressão alta, diabetes, obesidade, tabagismo, excesso de álcool, depressão, sedentarismo e traumatismo na cabeça. Na longevidade, os principais desafios são o isolamento social, poluição do ar e descuido com a visão. “Nunca é cedo, nem tarde demais. Cada fase da vida tem o seu ganho: construir reserva quando jovem, proteger os vasos na meia-idade, manter corpo, sentidos e vínculos na velhice”, resumiu a Dr. Sumika.
4 – Medicina do Estilo de Vida – “Sabe quem é dono de sua saúde? Não é o médico, não é o hospital, não é o laboratório. É você mesmo. As decisões que você toma perante si são responsáveis por quase metade dos casos de Alzheimer”, disse a Dra. Sumika para introduzir o conceito de Medicina do Estilo de Vida que, basicamente, consiste no uso de hábitos cotidianos para prevenir e tratar doenças. No campo da prevenção ao declínio cognitivo e Alzheimer, a especialista elencou seis aspectos fundamentais que podemos atuar (outros como a hereditariedade não podemos influir): Alimentação, Atividade Física, Qualidade do Sono, Manejo do Estresse, Vínculos Sociais e Evitar Substâncias de Risco (como álcool e cigarro).
5 – O que perdemos e o que ganhamos com o envelhecimento – O passar dos anos traz impactos cognitivos, a exemplo da diminuição da velocidade do raciocínio com mudanças sutis já a partir da década dos 30 anos (Salthouse, 2019), conforme alerta a Dra. Sharon Simon, psicóloga e neurocientista, professora assistente de Psiquiatria na Universidade Rutgers, com pós-doutorado na Universidade Columbia. Outros reflexos desse declínio são aumento da distração, divisão da atenção e menor memória operacional (capacidade de manipular informações mentalmente). Ao contrário da percepção comum, a neurocientista ressalta também que o envelhecimento traz ganhos, com destaque para o ganho de vocabulário e linguagem, “sabedoria social” (leitura emocional), tomada de decisão (conectar perspectivas, junto a análise de ganhos e perdas) e a manutenção de alguns tipos de memória (semântica, episódica). “Mas queixas de memória não significam doenças de memória de fato. Elas podem estar associadas a atenção, estresse, depressão ansiedade, sono etc. Em caso de dúvida, buscar avaliação é fundamental”, diz a Dra. Sharon.
6 – O desafio da multitarefa – O evento abordou ainda uma das principais “dores” do mundo digitalizado: a realização de “várias atividades ao mesmo tempo”, o conhecido multitask. A Dra. Sharon explica que o cérebro não processa duas atividades cognitivas complexas simultaneamente (como acompanhar duas reuniões), o que acaba provocando distração, erros e perda de velocidade, mas que é possível um processo de alternância rápida entre tarefas. A especialista compartilhou algumas dicas de como lidar melhor com este processo, a exemplo de evitar ao máximo estar no modo crônico multitarefa (que gera desgastes e equívocos), refletir sobre o foco de sua atenção (metacognição), priorizar (com planejamento e escolha), o uso de calendários e lembretes, aplicar a tecnologia a seu favor, a tão falada capacidade de se desconectar (e dizer não a distração), dentre outros.
7 – O exemplo do Centro Dia – O Brasil dispõe de uma política nacional de atenção a demência e Alzheimer e um dos destaques é o Centro Dia Synval Santos, de Volta Redonda (RS). O centro, que já foi premiado e é referência no País, funciona em um prédio de dois andares, com moderna construção inaugurada em 2014. Os usuários frequentam em média três vezes por semana e tem transporte gratuito de ida e volta. O trabalho de atendimento é coletivo, contando com uma equipe multidisciplinar qualificada, formada por técnicos e cuidadores que a todo tempo acompanham os idosos, incluindo o oferecimento de cinco refeições por dia. Para estimular a capacidade, eles participam de diversas atividades coletivas e individuais (arte, dança, artesanato, estudos etc.). A família também recebe orientação. Com isso, os idosos recebem atenção e estímulo, mas mantém os vínculos familiares, com ótimos resultados.
Para Luiz Moraes, diretor institucional do Supera e um dos curadores do evento, “Hoje a ciência já consegue diagnosticar precocemente a demência e a doença de Alzheimer. Logo, é importante ressaltar: enquanto não houver cura, a prevenção não é uma das opções, é a única. Essa é a proposta do Supera, levar informação para que nós possamos trabalhar o aspecto da prevenção”.
Acompanhe a íntegra das orientações acima e do evento, aqui.