Por Fernando Machado*
O escritor prateado não carrega apenas idade. Carrega memória. E a memória, quando posta em movimento pela prática constante da criação, deixa de ser arquivo parado. Ganha corpo como matéria viva.
A escrita, nesse sentido, assume valor terapêutico. Reorganiza lembranças, aviva imagens antigas, dá unidade ao que parecia disperso e abre passagem para sonhos que aguardavam sua vez.
Por isso, a pergunta se impõe: pode alguém, depois dos setenta e cinco anos, despertar talentos guardados em estado de latência? Pode uma memória formada ao longo de meio século — alimentada por rádio, jornais, televisão e pelas grandes revistas da época — encontrar, enfim, tempo e liberdade para se manifestar?
A resposta, neste caso, é sim.
Com a aposentadoria, quando as urgências profissionais se retiram do centro da vida, certos conteúdos guardados começam a procurar forma. Aquilo que parecia apenas lembrança passa a ganhar corpo de narrativa. O que antes era fragmento de memória ganha personagem, cenário, conflito e linguagem. E, quase por um descuido da lógica comum, a idade que muitos associam ao recolhimento se transforma em período de produção, descoberta e continuidade.
É desse lugar que escrevo. Não como exceção heroica, mas como alguém que encontrou na maturidade um campo fértil para criar. Nos últimos sete anos, publiquei quatro livros, somando mais de mil páginas, e, aos oitenta e três anos, sigo escrevendo o quinto. Cada obra nasceu também de um desafio pessoal: não repetir temas, não habitar sempre o mesmo território narrativo, não aceitar que a experiência se transforme em limite.
Comecei por Gastura, autobiografia escrita como registro de passagem e tentativa de dar forma a um legado. Nela, a linha da vida pessoal se cruza com acontecimentos do Brasil e do mundo que marcaram a segunda metade do século passado. Em seguida vieram Phenix, romance sobre segunda chance e memória apagada; Spoiler, ficção sobre preconceito, racismo e homofobia; e O Velho e o Cão, romance adulto narrado por um cachorro. Em plena atividade, debruço-me agora sobre Coração Seco, saga de três gerações de um coronel do cacau nas fazendas do sul da Bahia.
Não é apenas quantidade. É evidência: os sonhos não obedecem ao calendário que tentamos impor a eles. Ainda medimos a criação pela idade de quem cria, atribuímos prazo de validade à imaginação e exigimos do desejo de começar uma licença que o tempo não pode conceder.
Nem todo sonho envelhece. Alguns apenas esperam. Ficam encobertos pelo trabalho, pela família e pelos encargos da vida prática até encontrarem espaço para voltar com força madura.
Por isso, talvez a pergunta não seja por que o escritor prateado ainda sonha depois dos setenta e cinco anos, mas por que tantos ainda se espantam com isso. A idade marca o corpo, altera o ritmo, muda a relação com o mundo. Também pode trazer densidade, memória, paciência e liberdade interior. Às vezes, aquilo que chamamos de tarde é apenas o instante em que um sonho, enfim, encontra voz.
*Fernando Machado – 83 anos, engenheiro e autor de quatro livros, sendo o último O Velho e o Cão, pela editora Labrador.