SBGG-SP alerta que negligência, abandono, violência psicológica e abuso financeiro ainda são formas frequentes de violação de direitos dos 60+
O Brasil envelhece rapidamente, mas ainda enfrenta um desafio urgente: garantir que o aumento da longevidade seja acompanhado de proteção, dignidade e respeito. No mês do Junho Violeta, campanha dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP) reforça a importância de reconhecer sinais de maus-tratos, denunciar violações e combater a naturalização de práticas abusivas.
Segundo o IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões de pessoas entre 2012 e 2024, crescimento de 53,3% em pouco mais de uma década. O avanço do envelhecimento populacional torna ainda mais urgente a construção de redes de cuidado preparadas para proteger essa parcela da população.
Os dados do Disque 100 também mostram a dimensão do problema. Em 2024, o canal registrou 657,2 mil denúncias de violações de direitos humanos, alta de 22,6% em relação ao ano anterior. Entre os grupos mais vulneráveis, as pessoas idosas aparecem com 179,6 mil denúncias. O levantamento também aponta que muitas violações ocorrem dentro da própria residência da vítima e do suspeito, cenário que reforça o peso da violência intrafamiliar.
Para Marília Berzins, especialista em gerontologia e diretora da SBGG-SP, o Junho Violeta precisa ir além da denúncia de casos extremos.
“Quando falamos em violência contra a pessoa idosa, muita gente pensa apenas na agressão física. Mas a violência também está na negligência, no abandono, na humilhação, no isolamento forçado, no controle do dinheiro, na infantilização e na retirada da autonomia. Muitas vezes, ela acontece de forma silenciosa, dentro de casa, praticada por pessoas próximas, e por isso é tão difícil de ser identificada e enfrentada”, afirma.
A data central da campanha é 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, reconhecido oficialmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2011. A efeméride chama atenção para abusos que, por muito tempo, foram tratados como assuntos privados, mas que representam uma grave violação de direitos humanos e um problema de saúde pública.
A violência pode assumir diferentes formas. Entre elas estão agressões físicas, violência psicológica ou moral, abuso sexual, exploração financeira, negligência, abandono, restrição de liberdade, privação de medicamentos, alimentação inadequada, falta de higiene, impedimento de acesso a consultas e apropriação indevida de benefícios, aposentadorias ou patrimônio.
“A sociedade ainda carrega muitos preconceitos sobre o envelhecimento. O etarismo faz com que a dor da pessoa idosa seja minimizada, que sua palavra seja desvalorizada e que decisões sejam tomadas por ela sem escuta. Proteger não é controlar. Cuidar não é retirar direitos. A pessoa idosa precisa ser reconhecida como sujeito de vontade, história, desejos e escolhas”, reforça Marília.
A diretora da SBGG-SP destaca que familiares, vizinhos, profissionais de saúde, cuidadores, instituições e serviços públicos têm papel fundamental na identificação de sinais de alerta. Mudanças bruscas de comportamento, medo de determinados familiares, isolamento, piora inexplicada do estado de saúde, falta de higiene, desnutrição, lesões recorrentes, confusão no uso de medicamentos, ausência em consultas e alterações financeiras sem justificativa podem indicar situações de risco.
Em 2025, o governo federal estabeleceu prioridade para denúncias de violência contra pessoas idosas no Disque 100, com protocolos específicos para acolhimento, escuta qualificada e encaminhamento dos casos. O atendimento deve evitar revitimização, preservar o livre relato e acionar serviços de urgência quando houver risco imediato.
“Denunciar é uma forma de proteção, não de exposição. Muitas famílias têm medo, vergonha ou dificuldade de reconhecer que existe violência no próprio ambiente doméstico. Mas o silêncio prolonga o sofrimento. Precisamos fortalecer uma cultura de cuidado, corresponsabilidade e respeito aos direitos da pessoa idosa”, completa Marília Berzins.
A SBGG-SP reforça que casos suspeitos ou confirmados de violência podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito e disponível para registro de violações de direitos humanos. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar também os serviços de segurança pública e saúde.