Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, sendo 63,46% dos afastamentos em mulheres
A imagem da mulher bem-sucedida, produtiva e aparentemente capaz de dar conta de tudo tem escondido uma crise silenciosa de saúde mental dentro das empresas brasileiras. Cada vez mais executivas, líderes e profissionais de alta performance chegam ao limite físico e emocional tentando sustentar simultaneamente carreira, filhos, cuidado com os pais idosos, vida doméstica e pressão corporativa extrema.
Segundo dados do Movimento Mulher 360, cerca de 66% das mulheres em cargos de alta gestão no Brasil apresentam sinais de burnout — índice superior ao observado entre homens em posições equivalentes. Mulheres também representam aproximadamente 60% dos diagnósticos da síndrome no país.
Para o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, o problema vai muito além da ideia simplista de “não saber equilibrar a vida”. “Existe uma conta invisível que quase ninguém faz quando fala de mulheres em alta liderança: a conta do que sobra. O que sobra do corpo depois de um dia inteiro sustentando empresa, família, filhos, pais idosos e ainda tentando manter a própria performance emocional”, afirma o médico.
Segundo ele, o adoecimento feminino no ambiente corporativo não acontece por fragilidade emocional, mas por uma combinação estrutural de sobrecarga contínua, cobrança excessiva e ausência de recuperação mental.
A dupla jornada que nunca termina
Mesmo em cargos executivos e em famílias com maior renda, muitas mulheres continuam assumindo a chamada “gestão invisível” da vida doméstica.
“Elas podem terceirizar tarefas, mas não terceirizam responsabilidade mental. Continuam sendo as responsáveis por organizar, supervisionar, lembrar, resolver e sustentar emocionalmente toda a engrenagem da casa”, explica Daniel Sócrates.
Dados do Infojobs mostram que 83% das mulheres brasileiras enfrentam dupla jornada de trabalho, enquanto mais da metade afirma não contar com participação equivalente dos parceiros nas tarefas domésticas e no cuidado familiar.
A geração “sanduíche”: filhos, carreira e pais idosos
Outro fator que vem agravando o esgotamento mental feminino é o crescimento da chamada “geração sanduíche” — mulheres que, ao mesmo tempo, cuidam dos filhos e dos pais idosos.
Levantamento do Ibre/FGV identificou cerca de um milhão de brasileiros entre 35 e 49 anos vivendo essa realidade, sendo mais de 60% mulheres.
“Justamente quando muitas mulheres chegam ao auge profissional, entre os 40 e 55 anos, também começam a lidar com envelhecimento dos pais, doenças crônicas e aumento da demanda emocional familiar. É um nível de sobrecarga extremamente alto”, afirma o psiquiatra.
O peso invisível de provar competência o tempo inteiro
Além da sobrecarga doméstica e emocional, muitas executivas ainda enfrentam ambientes corporativos historicamente masculinos, nos quais sentem necessidade constante de validar competência.
“O desgaste não vem apenas do trabalho. Vem do esforço permanente de vigilância emocional, autocontrole e necessidade de provar valor o tempo inteiro”, explica Daniel Sócrates.
Segundo ele, microagressões cotidianas, pressão estética, necessidade de parecer sempre forte e medo de demonstrar vulnerabilidade acabam criando um ambiente propício para ansiedade, insônia, exaustão e burnout.
O corpo avisa muito antes do colapso
Na prática clínica, o especialista afirma que muitas mulheres chegam ao consultório apenas quando o corpo já entrou em colapso.
“O burnout raramente começa na crise de pânico ou no afastamento. Antes disso, o corpo já vinha avisando há anos através de insônia, enxaqueca, gastrite, taquicardia, queda de cabelo, dores musculares e exaustão persistente”, alerta.
Segundo ele, um dos maiores problemas da cultura corporativa atual é transformar exaustão em símbolo de competência.
“A alta performance feminina muitas vezes é construída sobre a habilidade de ignorar o próprio corpo. O problema é que o corpo sempre cobra a conta”, afirma.
O que precisa mudar nas empresas
Para Daniel Sócrates, combater o adoecimento mental feminino exige mudanças estruturais e não apenas ações superficiais de bem-estar corporativo.
“Não basta oferecer aplicativo de meditação ou aula de yoga se a cultura continua premiando excesso, disponibilidade total e jornadas intermináveis”, diz.
Entre as medidas consideradas fundamentais pelo especialista estão:
“O burnout não é sinal de fraqueza individual. Muitas vezes é o resultado previsível de um sistema que exige desempenho contínuo sem permitir recuperação emocional”, conclui o psiquiatra.
Sobre Dr. Daniel Sócrates
Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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