Saúde e Bem Estar

Japão ultrapassa 100 mil centenários: o que o recorde revela sobre os caminhos para envelhecer bem?

O Japão atingiu o recorde de 100 mil centenários. Mas como viver mais mantendo a autonomia? Crédito: FreePik
O Japão atingiu o recorde de 100 mil centenários. Mas como viver mais mantendo a autonomia? Crédito: FreePik

País chegou a 107.677 pessoas com 100 anos ou mais em 2026; gerontóloga Thais Bento Lima da Silva explica por que longevidade não depende de uma fórmula isolada e como cérebro, corpo, vínculos sociais e aprendizado fazem parte do envelhecimento saudável

Data de Publicação: 16/out/2026

Chegar aos 100 anos deixou de ser uma realidade tão excepcional no Japão. Em 2026, o país atingiu um novo recorde ao contabilizar 107.677 pessoas com 100 anos ou mais, segundo dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês. São 7.914 centenários a mais do que no ano anterior e, pela primeira vez, a população nessa faixa etária ultrapassou a marca de 100 mil pessoas.

O crescimento ocorre pelo 56º ano consecutivo e chama atenção também pela diferença entre os sexos. As mulheres representam a ampla maioria: são 94.298 centenárias, aproximadamente 88% do total.

Mais do que despertar curiosidade sobre os hábitos dos japoneses, o número coloca em evidência uma discussão cada vez mais presente em sociedades que vivem mais: não basta acrescentar anos à vida. O desafio é preservar autonomia, cognição e participação social durante o envelhecimento.

Segundo a gerontóloga Thais Bento Lima da Silva, pesquisadora da USP e parceira científica do Método Supera, envelhecer bem não é resultado de uma única escolha adotada depois dos 60 ou 70 anos. O processo é construído ao longo da vida e sofre influência das experiências, das condições de saúde, do ambiente e das oportunidades às quais cada pessoa teve acesso.

“Cuidar da saúde cerebral precisa fazer parte das prioridades de saúde para uma longevidade saudável. Não se trata de buscar uma fórmula mágica para evitar o envelhecimento cerebral, mas de pensar no que podemos fazer hoje, dentro das nossas possibilidades, para construir um envelhecimento com mais saúde, autonomia e participação”, explica Thais.

Viver mais também exige cuidar do cérebro

A longevidade costuma ser associada à alimentação equilibrada e à prática de atividade física, mas a saúde cerebral também ocupa papel importante nesse processo. E cuidar da cognição não significa apenas preservar a memória.

Atenção, linguagem, raciocínio, planejamento e tomada de decisões fazem parte das habilidades cognitivas utilizadas diariamente e também podem sofrer transformações ao longo do envelhecimento.

Nesse sentido, manter o cérebro ativo não exige necessariamente atividades elaboradas.

“Estimular a cognição não significa apenas realizar jogos de memória ou palavras cruzadas. Aprender algo novo, ler, utilizar novas tecnologias, participar de atividades culturais, conversar, ensinar, planejar tarefas e resolver situações do cotidiano são formas de mobilizar diferentes habilidades cognitivas”, destaca a gerontóloga.

Coração e cérebro envelhecem juntos

Outro ponto importante é abandonar a ideia de que saúde cerebral e saúde física caminham separadamente. Pressão arterial, diabetes, colesterol, tabagismo, sedentarismo e outros fatores associados à saúde cardiovascular também aparecem nas discussões científicas sobre envelhecimento cognitivo.

A Comissão The Lancet de 2024 reuniu 14 fatores potencialmente modificáveis associados ao risco de demência ao longo da vida. Entre eles estão hipertensão, diabetes, inatividade física, isolamento social, perda auditiva, colesterol LDL elevado, perda visual não tratada e tabagismo.

Isso ajuda a explicar por que a longevidade precisa ser encarada de maneira integrada.

“Em vez de procurar uma única atividade capaz de proteger o cérebro, precisamos pensar em diferentes dimensões da saúde. Manter-se fisicamente ativo, acompanhar pressão arterial, glicemia e colesterol, não fumar, ter uma alimentação adequada, continuar aprendendo e preservar vínculos sociais são cuidados que podem fazer parte dessa trajetória”, afirma Thais.

O desafio não é apenas chegar aos 100

O recorde japonês também antecipa uma questão que tende a ganhar importância em diferentes países à medida que a população envelhece: como transformar longevidade em anos vividos com independência e qualidade de vida?

Não existe comportamento capaz de garantir que uma pessoa chegará aos 100 anos, assim como não existe uma receita capaz de impedir doenças associadas ao envelhecimento. Há, entretanto, fatores sobre os quais é possível atuar ao longo da vida.

Para Thais, essa talvez seja a principal mudança de perspectiva necessária. O objetivo não é impedir que o cérebro envelheça, mas criar condições para preservar capacidades e autonomia pelo maior tempo possível.

“Cuidar da saúde do cérebro não começa na velhice. É um cuidado que pode ser construído desde as fases iniciais do ciclo de vida”, conclui a gerontóloga.

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