Arte & Cultura

Fafy Siqueira celebra 50 anos de carreira em comédia que desafia o idadismo e discute o TDAH

Sob direção de Isser Korik e idealização da atriz e produtora Rachel Gollassi, o espetáculo "Já Dizia Minha Vó!" marca os 50 anos de carreira da atriz, diretora, cantora e compositora premiada FAFY SIQUEIRA. Crédito: Saymon Sampaio
Sob direção de Isser Korik e idealização da atriz e produtora Rachel Gollassi, o espetáculo "Já Dizia Minha Vó!" marca os 50 anos de carreira da atriz, diretora, cantora e compositora premiada FAFY SIQUEIRA. Crédito: Saymon Sampaio

Sob direção de Isser Korik e idealização da atriz e produtora Rachel Gollassi, o espetáculo Já Dizia Minha Vó! em cartaz no Teatro UOL, transforma questões sociais delicadas em comédia leve e emocionante

Data de Publicação: 02/set/2026

O riso é a ferramenta que aproxima gerações em Já Dizia Minha Vó!: uma comédia que une humor, reflexão e impacto social. Idealizado a partir de uma proposta inicial de Gilberto Tadeu — pai da atriz Rachel Gollassi —, o espetáculo nasceu inspirado pelas histórias diversas de sua avó paterna, Dona Nilza. A peça estreou dia 2 de agosto, no Teatro UOL, em São Paulo, marcando os 50 anos de carreira de Fafy Siqueira. Com texto de Tiago Luchi e direção de Isser Korik, reúne no palco Fafy e a idealizadora Rachel Gollassi. O espetáculo conta com Gil Teles na assistência de direção, preparação corporal de Tito Soffredini — com base nas técnicas de Klaus Viana —, concepção visual e figurinos de Marisa Rebollo, iluminação de César Pivetti e trilha de Wagner Bernardes.

A trama gira em torno da relação entre uma avó moderna (Dona Irene) e sua neta vulnerável (Gabriela). Enquanto a jovem busca forças para sair de um relacionamento tóxico, sua avó enfrenta o desafio de reingressar no mercado de trabalho e lidar com o preconceito contra a idade. De forma leve e acessível, o espetáculo aborda temas atuais e relevantes, como o combate ao idadismo e a importância de as mulheres fortes se apoiarem, promovendo a igualdade de gênero e o empoderamento feminino e despertando no público a consciência de que experiência, afeto e solidariedade são ferramentas poderosas de transformação.

O resgate da linguagem de interpretação do Teatro Popular na direção
O diretor Isser Korik é quem equilibra humor e reflexão em cena. Entusiasta do texto, ele destaca que a dramaturgia de Luchi tem ritmo natural e convida à interpretação. “Já Dizia Minha Vó!é aquele tipo de texto que dá vontade de atuar. Fiquei muito feliz com o convite para dirigir, porque é uma oportunidade de trabalhar de forma muito direta com as atrizes, mais focado na interpretação que na encenação.” O objetivo de Korik foi reforçar o vínculo afetivo entre avó e neta sem perder a agilidade do texto e o tom de comédia. Para isso, recorreu aos 40 anos de pesquisa em Teatro Popular Brasileiro, escola que estuda desde 1985, quando foi discípulo de Carlos Alberto Soffredini. O trabalho da linguagem de interpretação é reforçado pela parceria com Tito Soffredini na preparação corporal das atrizes, baseada na técnica de Klaus Viana. A concepção visual de Marisa Rebollo, a iluminação de César Pivetti e a trilha sonora de Wagner Bernardes buscam uma teatralidade deslocada do realismo, visando principalmente a diversão e o conforto pela plateia.

Leveza, humor e reflexão social
A comédia trata o preconceito de idade com leveza, mostrando como essa barreira limita e exclui profissionais valiosos no mercado. Ao dar voz a personagens que enfrentam esse cenário, o espetáculo estimula uma reflexão sobre convivência entre gerações e sobre valores como respeito e inclusão. Embora a personagem Gabriela não tenha sido inspirada nas vivências de Rachel Gollassi, a atriz e idealizadora encontrou pontos de conexão com o papel durante o processo de ensaios. Ela esclarece que a história foi criada de forma totalmente independente pelo autor, mas que acabou gerando uma identificação posterior.

“O mais curioso é que o Tiago não conhecia minha história pessoal. Depois percebi que muitas das experiências da Gabriela dialogavam com as minhas, porque eu já vivi um relacionamento tóxico e compartilho alguns conflitos internos parecidos com os dela. Durante o processo de construção da personagem, passei a me identificar com algumas características associadas ao TDAH.” Sem diagnóstico formal, a atriz pesquisou o tema a fundo para estruturar a personagem. O espetáculo conta com o apoio da campanha “TDAH Levado a Sério”, da Apsen, patrocinadora da temporada, e busca tratar o transtorno com responsabilidade. A produção defende que TDAH e ansiedade exigem acolhimento, terapia e acompanhamento — não rótulos. O interesse da Apsen em apoiar o projeto está ligado ao compromisso da farmacêutica com saúde e bem-estar, temas que aparecem na trama de forma orgânica, como nos cuidados de saúde que fazem parte da rotina de Dona Irene.

Fafy Siqueira e os 50 anos de palco
Depois de cinquenta anos de carreira, Fafy Siqueira pode escolher os projetos que aceita. O texto de Tiago Luchi a conquistou pela precisão das piadas. “O que me fez escolher esse texto foi a qualidade das piadas. Ver um texto de humor com piadas assim interessantes, elegantes e inteligentes, hoje em dia, é muito difícil. Isso para mim foi o fundamental.” Interpretar a elegante Irene trouxe também uma mudança bem-vinda. Depois de anos em papéis de TV que exigiam abrir mão da vaidade em nome do escracho, Fafy comemora viver uma mulher de 70 anos refinada, bem-vestida, quase uma “Meryl Streep da vida”.

Fafy também comenta o idadismo enfrentado por sua personagem. Seu nome consolidado a protege de ser preterida individualmente, mas ela aponta que a indústria ainda erra ao não dar protagonismo a atores mais velhos, relegando-os com frequência a papéis de avós coadjuvantes. Por isso, o papel principal de Dona Irene é raro. Entre o palco e a realidade, a atriz se diverte ao traçar a linha que a separa da personagem. “Eu não tive filhos porque não quis, mas tenho uma maternidade na minha alma muito grande. Outra coisa que tem de Fafy na Dona Irene é a alegria: a Dona Irene acredita na vida, a Fafy acredita na vida.”

Personagens ditando o ritmo
Para evitar o tom panfletário, o autor Tiago Luchi revela que seu norte criativo foi deixar que o humor nascesse organicamente do choque geracional, e não de piadas sobre os temas em si. “O maior desafio foi justamente esse: não deixar que os temas conduzissem a história. Eu sempre parti das personagens. A Gabriela vive tudo de forma intensa, impulsiva e imediata. Já a Dona Irene olha para a vida com a tranquilidade de quem já errou muito e aprendeu com isso. O choque entre essas duas formas de enxergar o mundo cria situações naturalmente engraçadas.” Segundo Luchi, a virada de chave foi construir uma identificação com as vivências da dupla, blindando a dignidade das personagens acima da piada fácil para fazer o público rir e, ao mesmo tempo, refletir. “Sempre tive o cuidado de que o público risse das situações e se identificasse com as personagens, nunca das suas dores. Acho que essa foi a chave para preservar a leveza. Eu queria que o espectador saísse do teatro com a sensação de ter dado muitas risadas, mas percebesse, já no caminho de casa, que também refletiu sobre a própria vida.”

Sinopse
Uma avó (Dona Irene) pouco convencional, extrovertida e cheia de vida está passando um período hospedada na casa de sua neta (Gabriela). Enquanto a jovem enfrenta Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), ansiedade e o peso de um relacionamento tóxico, a avó lida com outro desafio: a dificuldade de voltar ao mercado de trabalho por conta do Etarismo Corporativo, que insiste em negar espaço e valor à sua experiência. Entre festas, aplicativos de relacionamento e a vontade de viver intensamente, Dona Irene e Gabriela, ao dividirem a mesma rotina, acabam se envolvendo em situações hilárias e emocionantes que as aproximam e revelam lições profundas sobre amor, autoestima, solidariedade feminina e a importância de permanecer fiel a si mesmo.

Serviço

Já Dizia Minha Vó! 
Teatro UOL – Shopping Pátio Higienópolis. Av. Higienópolis, 618 – Consolação.
Estreou: 2 de agosto.
Temporada: de 2 de agosto a 25 de outubro.
Sessões: sábados e domingos, às 18h. Ingressos: R$ 150,00 (inteira) e R$ 75,00 (meia-entrada). Ingressos Populares: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada).

Links de vendas:
https://teatrouol.com.br/espetaculos/ja-dizia-minha-vo/

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