Relacionamentos

Quanto é preciso sofrer para sair de um casamento infeliz?

Você já reparou como muitas mulheres permanecem em casamentos infelizes apenas por sentirem que não têm um motivo 'grave' o suficiente, como uma traição, para dar um fim à relação? Crédito: Magnific
Você já reparou como muitas mulheres permanecem em casamentos infelizes apenas por sentirem que não têm um motivo 'grave' o suficiente, como uma traição, para dar um fim à relação? Crédito: Magnific

Artigo escrito por Nilda Lima*, psicoterapeuta especializada em relacionamentos

Data de Publicação: 04/nov/2026

“Se ele me traísse, eu teria um motivo para ir embora.” Essa frase traduz um conflito que aparece muito nos atendimentos a mulheres que vivem relacionamentos desgastantes. Elas reconhecem a própria infelicidade, mas acreditam que precisam de um acontecimento mais grave para justificar uma mudança. Algumas esperam uma traição. Outras, uma nova humilhação. Há também quem deseje que o marido tome a iniciativa de terminar, para não carregar a culpa pelo fim do casamento.

Por trás dessa espera, pode existir uma pergunta difícil de formular: o meu sofrimento já é motivo suficiente para que eu repense essa relação?

Um casamento não precisa chegar a uma situação extrema para merecer atenção. A solidão dentro da relação, a desvalorização constante e a falta de espaço para existir como pessoa são experiências que precisam ser consideradas. Reconhecer esse sofrimento não significa ter de decidir imediatamente pela separação e sim começar a escutar o que vem sendo silenciado.

Em minha experiência no atendimento a mulheres, observo que algumas conseguem descrever detalhadamente os desejos do parceiro, o que ele gosta, o que espera, o que o irrita e como prefere que a casa funcione. Quando pergunto sobre os próprios desejos, a resposta pode demorar. O que você quer para sua vida? Do que sente falta? O que considera indispensável em uma relação?

Essas perguntas podem se tornar difíceis quando a rotina passa a ser organizada quase exclusivamente em torno das necessidades do outro. Aos poucos, projetos são adiados, interesses perdem espaço e decisões pessoais ficam condicionadas à aprovação do parceiro. A mulher continua cumprindo responsabilidades, mas encontra cada vez menos oportunidades de reconhecer a si mesma.

Nesse contexto, estabelecer limites pode despertar culpa. Dizer “isso me machuca” ou “não quero continuar vivendo dessa forma” parece exigir uma defesa, como se a própria percepção não tivesse legitimidade. A traição ou uma agressão mais evidente passam a representar uma espécie de autorização externa para agir.

Há ainda uma avaliação que merece cuidado. Um homem pode ser trabalhador, responsável financeiramente e dedicado aos próprios objetivos e, ao mesmo tempo, desconsiderar as necessidades emocionais da companheira. Essas qualidades não respondem, sozinhas, à pergunta sobre como ele se relaciona com ela. Há respeito por suas escolhas? Interesse por seus projetos? Liberdade para discordar?

Valorizar o trabalho doméstico da esposa também não equivale a reconhecer sua individualidade. É preciso enxergá-la para além daquilo que ela oferece à organização da casa e ao bem-estar da família. Seus sonhos, seu descanso, sua vida profissional e suas relações pessoais precisam ter espaço.

Também é necessário distinguir situações diferentes. Nem todo casamento infeliz é abusivo. E permanecer em uma relação não significa, necessariamente, concordar com o que acontece nela. Questões financeiras, responsabilidades com os filhos, isolamento, ameaças e ausência de uma rede de apoio podem limitar as possibilidades de escolha. Perguntar apenas “por que ela não vai embora?” ignora as condições concretas de sua vida.

Por isso, a reconstrução da autonomia não deve se transformar em mais uma cobrança. Ela pode começar com movimentos possíveis como retomar vínculos de confiança, reconhecer necessidades, buscar apoio e compreender quais condições seriam necessárias para decidir com segurança. Quando há violência, ameaças ou controle, a proteção precisa orientar esse processo.

Antes de escolher se deseja permanecer ou sair, uma mulher pode precisar recuperar a confiança na própria percepção. Identificar o que sente, quais são seus valores e o que considera inegociável ajuda a construir critérios para avaliar a relação.

Uma mulher não precisa esperar uma traição ou uma nova humilhação para reconhecer que seu sofrimento merece atenção. Ela precisa encontrar espaço para fazer uma pergunta que talvez tenha deixado de lado por muito tempo: o que eu desejo para a minha vida?

*Nilda Lima é terapeuta, especialista em relacionamentos com narcisistas e atua no acompanhamento de mulheres em processos de compreensão de vínculos abusivos, libertação emocional e reconstrução da identidade.

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