Carreira

Pela primeira vez, a geração 40+ pode estar em vantagem no mercado de trabalho

Enquanto as telas aceleram a execução, a decisão continua sendo humana — e a experiência acumulada deixou de ser custo para virar o ativo mais valioso da sala. Crédito: imagem gerada por IA
Enquanto as telas aceleram a execução, a decisão continua sendo humana — e a experiência acumulada deixou de ser custo para virar o ativo mais valioso da sala. Crédito: imagem gerada por IA

Com a IA assumindo execução, o diferencial passa a ser interpretação e decisão — terreno em que a experiência acumulada pesa mais. Por Éric Machado*

Data de Publicação: 17/set/2026

A inteligência artificial está provocando uma revisão importante sobre o valor da experiência dentro das empresas. Durante anos, associou-se a expertise principalmente à velocidade de execução e à capacidade de acumular conhecimento técnico, características muitas vezes atribuídas a profissionais mais jovens, recém-atualizados com as ferramentas mais recentes do mercado. Esse modelo começa a perder força. À medida que a IA generativa assume tarefas de pesquisa, cálculo e execução, o diferencial competitivo deixa de estar em quem produz mais rápido e passa a estar em quem sabe interpretar, validar e decidir com mais precisão, um terreno em que profissionais acima de 40 anos tendem a levar vantagem.

Esse movimento ganha contornos ainda mais relevantes no Brasil. As projeções do IBGE mostram que a população em idade ativa está envelhecendo de forma acelerada, tendência confirmada pela PNAD Contínua, que já registra participação crescente de faixas etárias mais maduras na força de trabalho. Para as empresas brasileiras, esse cenário torna decisões de sucessão, retenção e formação de lideranças menos episódicas e mais estratégicas, à medida que o país concentra, cada vez mais, seu capital produtivo em profissionais com décadas de repertório acumulado.

A tendência aparece também nos dados internacionais. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta pensamento analítico, resiliência, flexibilidade e liderança entre as competências mais valorizadas pelas empresas nos próximos anos, no mesmo momento em que habilidades ligadas à IA e ao big data figuram entre as de crescimento mais acelerado. O levantamento mostra ainda que 63% dos empregadores consideram as lacunas de competências uma das principais barreiras à transformação dos negócios, o que reforça que a vantagem não está na idade, isoladamente, mas na combinação entre repertório acumulado e domínio efetivo da tecnologia.

Esse equilíbrio já aparece em pesquisas sobre o uso da IA no trabalho. O estudo Generative AI at Work, dos pesquisadores Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey Raymond, publicado pelo NBER, mostrou que os ganhos de produtividade com IA generativa foram particularmente relevantes entre trabalhadores menos experientes, em uma análise com mais de cinco mil profissionais de atendimento ao cliente. O resultado costuma ser interpretado como evidência de que a tecnologia reduz a importância da experiência, mas expressa um fenômeno diferente: a IA acelera o acesso a padrões de conhecimento que antes levavam anos para se formar, o que o economista David Autor, do MIT, descreve como uma ampliação do alcance da expertise humana dentro das organizações.

Por anos, o debate sobre tecnologia e mercado de trabalho girou em torno de uma única pergunta: profissionais mais experientes conseguiriam acompanhar as gerações mais jovens no domínio de novas ferramentas? Diante da IA generativa, a pergunta que interessa às empresas passa a ser outra. O que acontece quando alguém com vinte ou trinta anos de repertório profissional passa a contar com uma ferramenta capaz de multiplicar sua capacidade de execução? Um profissional que já enfrentou crises, liderou equipes, negociou contratos e respondeu pelas consequências de decisões difíceis tem parâmetros para interpretar respostas geradas por IA com mais senso crítico, algo que nenhuma ferramenta entrega de forma automática.

Essa vantagem, no entanto, não é automática nem garantida para todo profissional acima de 40 anos. A experiência não pode se converter em acomodação, e quem rejeitar a inteligência artificial tende a perder espaço da mesma forma que qualquer outro profissional resistente à mudança. O diferencial competitivo aparece quando repertório acumulado, curiosidade e domínio efetivo da tecnologia caminham juntos, não quando o tempo de carreira é tratado como garantia isolada de relevância dentro da organização.

É nesse ponto que a responsabilidade das lideranças se torna mais evidente. Substituir indiscriminadamente profissionais experientes, na expectativa de que a IA compense sozinha a perda de conhecimento acumulado, tende a ser um erro estratégico caro para as organizações. Em muitos casos, esses profissionais são justamente os mais preparados para transferir à tecnologia e às equipes mais jovens o contexto de negócio que não está escrito em nenhum manual, reduzindo riscos operacionais e financeiros associados a decisões mal calibradas.

Mais do que reduzir o valor da experiência, a inteligência artificial tende a redefinir em que ela consiste. Se antes a experiência era medida pela quantidade de respostas que um profissional conseguia dar, a crescente capacidade de execução das máquinas exige mais atenção à qualidade das perguntas, ao critério usado para confiar em uma resposta e à percepção de quando o sistema está errado. Décadas de repertório profissional, combinadas ao aprendizado contínuo, tendem a se traduzir em diferencial competitivo real, e é esse cálculo que deve orientar como as empresas brasileiras estruturam suas estratégias de talento diante da adoção acelerada de IA.

*Éric Machado é CEO da Revna Tecnologia, especializado em gestão de Tecnologia da Informação (TI) e Supply Chain. Com quase 30 anos de experiência, é conhecido por ser um dos primeiros consultores de Oracle EBS e Supply Chain do Brasil, além de já ter atuado em grandes companhias como General Electric (GE), Xerox, Yamaha, Toyota, Globo, Epson, IBM, Deloitte, LATAM, Cummins e Meritor.

OUÇA NOSSO PODCAST

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Dicas, reflexões e novidades sobre a melhor fase da vida.

Newsletter signup

Please wait...

Obrigado por se cadastrar!!!